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Palavra do Presidente
Salário-mínimo e distribuição de renda

12/01/2006
@ 10:23

Está lá na Constituição. O salário-mínimo tem que servir para uma vida digna para o trabalhador e sua família, atendendo as necessidades básicas de moradia, alimentação, higiene, educação, saúde. O Dieese fez o cálculo para saber quanto deveria ser o valor para fazer valer o que está na Lei Maior do país: R$ 1.607,11. Hoje o mínimo é de R$ 300. Deve ir a R$ 350. Ainda assim, estará 78% defasada em relação ao mínimo para uma vida decente, mostrando que o que está na Constituição tem valor de letra morta.
É claro que não dá para elevar o salário-mínimo para o valor justo de uma hora para outra. Mas dá para estabelecer uma política para que, em uma década, essa realidade mude. O governo Lula prometeu dobrar o valor real do salário, mas entre intenção e gesto a distância está sendo enorme. Prova disso é o sacrifício que está sendo para o movimento sindical em arrancar um aumento decente para este ano e a correção da tabela do Imposto de Renda. Sem vontade política, a coisa fica complicada.
Há uma relação direta entre salário-mínimo e justiça social. No quesito distribuição de renda, o Brasil passa vergonha. Somos o segundo país mais injusto do mundo, só ganhando de Serra Leoa. O abismo que separa ricos e pobres por aqui é um atentado à dignidade humana. Enquanto ele persistir, jamais seremos um país desenvolvido.
Valorizar o mínimo é valorizar aqueles que estão na base da pirâmide, especialmente os milhões de aposentados para quem o benefício é o sustento de um mês inteiro. Valorizar o mínimo é diminuir esse terrível fosso social.
O argumento do governo para não dar um aumento maior realmente não convence. Segundo o lenga-lenga oficial – que, diga-se, não vem de hoje – não é possível dar reajustes maiores porque isso quebraria a Previdência. Ora, mas tanto este governo quanto o anterior tiveram oportunidades – e a responsabilidade não cumprida – de reformar pra valer a Previdência, de acabar com os privilégios, de acabar de vez com o escândalo da altas aposentadorias, acumuladas às vezes, para uma parte do setor público que não quer largar o osso. Na hora do vamos ver, o governo Lula não teve coragem de mudar, e agora na maior cara de pau diz que é a Previdência que emperre o mínimo. Aí ficam duas soluções: arrumar a Previdência – acabando com as mamatas de alguns em benefício de muitos – ou vetar o aumento do salário-mínimo – mantendo a grande maioria dos aposentados e muitos trabalhadores em situação difícil. É incrível como há mais de uma década os governos federais no Brasil só escolhem a segunda opção.
A Força Sindical vai continuar sua cruzada em favor de um salário-mínimo justo. Para que o que está escrito na Constituição seja um compromisso da sociedade, e não palavras vazias. Uma política de valorização do salário-mínimo, uma política para o emprego e o crescimento da renda do trabalhador e investimento social maciço são os pilares para uma sociedade desenvolvida. Não é fácil, mas ficar de braços cruzados é que não vai resolver.
Um país melhor se faz com compromisso, consciência, união e participação.

Paulo Pereira da Silva, Paulinho, presidente da Força Sindical



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