Para diretor do Ines, dificuldade de estudantes para fazer redação revela desconhecimento da sociedade
Enem dá notoriedade à educação de surdosCrédito: Divulgação

O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano, os “desafios para a formação educacional dos surdos”, surpreendeu muitos candidatos, mas chamou a atenção para os desafios enfrentados pelas pessoas com deficiência auditiva cotidianamente. A avaliação é de Marcelo Cavalcanti, diretor geral do Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines), referência na educação desse segmento desde o século XIX. Para ele, a dificuldade de desenvolver um texto sobre a questão relatada por muitos candidatos do Enem é sinal de que falta informação sobre algo tão importante:

— Isso mostra como é necessário discutir a inclusão, a acessibilidade e a realidade das pessoas surdas. Os principais desafios se referem às barreiras linguísticas. A Língua brasileira de sinais (Libras) é reconhecida em lei como a segunda oficial do país, mas a sociedade não está preparada para se comunicar com os surdos, que dependem principalmente dela, sua primeira língua.

O educador ressalta que este foi também o primeiro Enem em que surdos puderam optar por videoprovas em Libras, permitindo maior entendimento do exame e de seus enunciados. A medida, observa, aumenta as chances de os surdos concorrerem em situação de igualdade a uma vaga no ensino superior.
— O surdo precisa adquirir o conhecimento inicialmente através de sua língua natural, a de sinais. A partir dela, tem acesso à educação e pode desenvolver suas capacidades, como aprender a língua portuguesa — explica Cavalcanti. — Diferentemente dos ouvintes, os surdos enfrentam obstáculos na comunicação oral e, por isso, precisam de outra abordagem para a aquisição de uma língua. A educação bilíngue, com a presença de professores que dominem a língua de sinais e intérpretes colaboradores ativos no processo, permite o aprendizado com o uso da primeira língua dos surdos como base e a segunda (português) para um amplo acesso ao conhecimento.

Localizado em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio, o Ines tem aproximadamente 400 alunos matriculados no colégio de aplicação da instituição (da educação infantil ao ensino médio, apenas para surdos), cerca de 200 no ensino superior (graduação em pedagogia bilíngue e pós, para surdos e ouvintes), além de mais de 500 no curso de Libras. Em escolas que não são bilíngues ou especializadas, como o Ines, em geral, alunos surdos e ouvintes frequentam as mesmas aulas e salas e precisam do apoio de intérpretes de Libras.

A História do Ines revela como a educação dos surdos é um desafio há muito tempo. O instituto foi criado no século XIX, por iniciativa do surdo francês E. Huet, que havia sido diretor do Instituto dos Surdos-Mudos de Bourges, na França. Em 1855, ele apresentou ao Imperador Pedro II um documento com a intenção de fundar a primeira escola para surdos no Brasil. O governo imperial apoiou a iniciativa e destacou o Marquês de Abrantes para acompanhar a criação da instituição. A nova escola começou a funcionar em 1º de janeiro de 1856, data em que também foi publicada a proposta de ensino apresentada por Huet: disciplinas de Língua Portuguesa, Aritmética, Geografia, História do Brasil, Escrituração Mercantil, Linguagem Articulada, Doutrina Cristã e Leitura sobre os Lábios.

Por ter sido por muito tempo a única instituição de educação de surdos no Brasil e até mesmo em países vizinhos, o Ines recebeu alunos de todo o país e do exterior, tornando-se referência para os assuntos de educação, profissionalização e socialização de surdos. Ao longo de sua história, passou por diversas transformações, que acompanharam a forma como a inclusão passou a ser considerada no país.


 

Enem dá notoriedade à educação de surdosCrédito: Divulgação

O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano, os “desafios para a formação educacional dos surdos”, surpreendeu muitos candidatos, mas chamou a atenção para os desafios enfrentados pelas pessoas com deficiência auditiva cotidianamente. A avaliação é de Marcelo Cavalcanti, diretor geral do Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines), referência na educação desse segmento desde o século XIX. Para ele, a dificuldade de desenvolver um texto sobre a questão relatada por muitos candidatos do Enem é sinal de que falta informação sobre algo tão importante:

— Isso mostra como é necessário discutir a inclusão, a acessibilidade e a realidade das pessoas surdas. Os principais desafios se referem às barreiras linguísticas. A Língua brasileira de sinais (Libras) é reconhecida em lei como a segunda oficial do país, mas a sociedade não está preparada para se comunicar com os surdos, que dependem principalmente dela, sua primeira língua.

O educador ressalta que este foi também o primeiro Enem em que surdos puderam optar por videoprovas em Libras, permitindo maior entendimento do exame e de seus enunciados. A medida, observa, aumenta as chances de os surdos concorrerem em situação de igualdade a uma vaga no ensino superior.
— O surdo precisa adquirir o conhecimento inicialmente através de sua língua natural, a de sinais. A partir dela, tem acesso à educação e pode desenvolver suas capacidades, como aprender a língua portuguesa — explica Cavalcanti. — Diferentemente dos ouvintes, os surdos enfrentam obstáculos na comunicação oral e, por isso, precisam de outra abordagem para a aquisição de uma língua. A educação bilíngue, com a presença de professores que dominem a língua de sinais e intérpretes colaboradores ativos no processo, permite o aprendizado com o uso da primeira língua dos surdos como base e a segunda (português) para um amplo acesso ao conhecimento.

Localizado em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio, o Ines tem aproximadamente 400 alunos matriculados no colégio de aplicação da instituição (da educação infantil ao ensino médio, apenas para surdos), cerca de 200 no ensino superior (graduação em pedagogia bilíngue e pós, para surdos e ouvintes), além de mais de 500 no curso de Libras. Em escolas que não são bilíngues ou especializadas, como o Ines, em geral, alunos surdos e ouvintes frequentam as mesmas aulas e salas e precisam do apoio de intérpretes de Libras.

A História do Ines revela como a educação dos surdos é um desafio há muito tempo. O instituto foi criado no século XIX, por iniciativa do surdo francês E. Huet, que havia sido diretor do Instituto dos Surdos-Mudos de Bourges, na França. Em 1855, ele apresentou ao Imperador Pedro II um documento com a intenção de fundar a primeira escola para surdos no Brasil. O governo imperial apoiou a iniciativa e destacou o Marquês de Abrantes para acompanhar a criação da instituição. A nova escola começou a funcionar em 1º de janeiro de 1856, data em que também foi publicada a proposta de ensino apresentada por Huet: disciplinas de Língua Portuguesa, Aritmética, Geografia, História do Brasil, Escrituração Mercantil, Linguagem Articulada, Doutrina Cristã e Leitura sobre os Lábios.

Por ter sido por muito tempo a única instituição de educação de surdos no Brasil e até mesmo em países vizinhos, o Ines recebeu alunos de todo o país e do exterior, tornando-se referência para os assuntos de educação, profissionalização e socialização de surdos. Ao longo de sua história, passou por diversas transformações, que acompanharam a forma como a inclusão passou a ser considerada no país.