Personagens pensam em medidas para sair da invisibilidade e tornar ambiente acolhedor
deficienteCrédito: Divulgação

Na semana em que é comemorado o Dia Nacional da Luta das Pessoas com Deficiência, a seção “Tô Dentro!” reúne três histórias inspiradoras de personagens que batalham pela inclusão. São depoimentos de quem vive diariamente as dificuldades impostas aos cidadãos com algum tipo de limitação física ou intelectual e, a partir da própria experiência, pensa e propõe medidas para sair da invisibilidade e tornar o ambiente social mais acolhedor e propício a todos.

A data — 21 de setembro — foi instituída em 1982, simbolizando o nascimento das reivindicações por cidadania e participação em igualdade de condições. Segundo o subsecretário municipal da Pessoa com Deficiência, Geraldo Nogueira, o dia representa o momento em que pessoas com deficiência passam a incorporar uma luta por maior espaço na sociedade.

— As comemorações têm sido muito emblemáticas, e geralmente é uma época na qual o tema da deficiência está muito presente. Isso é muito importante, porque ainda somos um segmento muito invisível da sociedade. Mas acho que a presença da pessoa com deficiência no meio social tem melhorado — afirma.

Geraldo é um dos personagens que conta aqui sua trajetória de militância, que começou após um acidente que o deixou paraplégico. A designer Fernanda Schacker, que tem síndrome de Down, criou um guia para que diagramadores possam produzir livros acessíveis a pessoas com qualquer tipo de deficiência. E a professora Ana Cristina Hildebrandt, deficiente visual que dá aulas há 25 anos conta como se tornou uma referência para seus alunos.

De acordo com o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 45 milhões de brasileiros têm algum tipo de deficiência. Em 2008, o Brasil ratificou a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU) e o Protocolo Facultativo, documentos que basearam a Lei Brasileira de Inclusão (LBI), em vigor desde janeiro de 2016.

GERALDO NOGUEIRA, SUBCRETÁRIO MUNICIPAL DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA

Há 27 anos me acidentei, sofri uma lesão na coluna e fiquei paraplégico. Comecei minha militância na causa dois anos depois. Dediquei meu conhecimento de Direito a isso e participei da elaboração de diversas leis sobre o tema, auxiliando parlamentares, na maioria das vezes como voluntário. Como ativista, entendi que tinha que trabalhar também para pessoas com outros tipos de deficiência. O Brasil tem uma das legislações mais ricas do mundo na questão de inclusão, mas o país precisa evoluir no conceito de cidadania: a sociedade vira as costas às pessoas com deficiência, que têm que resolver seus problemas sozinhas.

Durante esse período, percebi nitidamente uma mudança grande, mas o preconceito gera na gente uma dor que não dá para explicar. E, na maioria das vezes, não te afronta, é feito de forma velada. Eu vejo a necessidade de usar meu conhecimento para atingir o maior número de pessoas. Agora estou na subsecretaria municipal da Pessoa com Deficiência e, entre outros projetos, esperamos publicar em breve um decreto que facilite a concessão de gratuidade no transporte público para esse grupo. Vejo meu trabalho como uma missão, como se eu tivesse que dar uma resposta positiva à deficiência.

FERNANDA SCHACKER, AUTORA DO 'GUIA DE DIAGRAMAÇÃO PARA UM LIVRO ACESSÍVEL'

Muitos livros ignoram as limitações de pessoas com deficiência. Escrevi um guia para orientar como os designers de editoras podem mudar esta postura. Minha obra tem letras grandes e uma fonte legível, o que ajuda pessoas de baixa visão. Deixei uma margem grande para que pessoas com deficiência física consigam virar a página sem esforço. E não deixei o texto alinhado à direita porque, desta forma, as pessoas com deficiência mental podem se orientar melhor entre uma linha e outra.

O guia foi meu trabalho de conclusão do curso de Design que fiz em uma universidade gaúcha. Foram cinco anos em que, às vezes, convivi com professores desconfiados, que não sabiam como interagir comigo, porque nunca tinham tido um aluno com síndrome de Down. Consegui cumprir uma trajetória difícil: ia sozinha para o curso, que era noturno, e gravava a aula para assisti-la novamente em casa ou fotografava o quadro quando ele era apagado rápido demais. Depois de um ano e meio, eu estava totalmente adaptada. Alguns colegas até pediam meu caderno emprestado para copiar alguma matéria que não haviam entendido.

Quero contribuir para a inclusão das pessoas com deficiência e apresentar meu guia em seminários e feiras. Só falta encontrar uma editora.


ANA CRISTINA HILDEBRANDT, PROFESSORA DO INSTITUTO BENJAMIN CONSTANT PARA ALUNOS CEGOS

Tenho 25 anos de magistério e sempre dei aula para alunos cegos, que leem e escrevem em Braile. Tive baixa visão até os 8 anos e, depois, fiquei cega completamente. É gratificante fazer pelos outros o que já fizeram por mim. A criança cega tem poucas referências de adultos cegos, principalmente na rede municipal, onde estudam com professores e colegas que enxergam. Ali, o professor cego, como eu, além de ensinar matemática, por exemplo, acaba sendo uma referência também. No Benjamin Constant é um pouco diferente porque os alunos estão em turmas em que todos são cegos, em condição de igualdade.

Digo para eles que não precisam ter medo, mostro que eles podem ter uma vida acadêmica, uma profissão, para que eles se coloquem como pessoas autônomas e cidadãos. Mas nem todos os alunos têm a chance de descobrir que a situação deles não é de impossibilidade, mas de dificuldade. E que eles podem aprender de outras formas, com outros sentidos.

Dei aula por dez anos de Braile para professores que vinham ao instituto se qualificar. Foi muito rico conscientizar os colegas, divulgar o sistema Braile e mostrar que os alunos deles têm capacidades maiores do que eles acreditam ter.


 

deficienteCrédito: Divulgação

Na semana em que é comemorado o Dia Nacional da Luta das Pessoas com Deficiência, a seção “Tô Dentro!” reúne três histórias inspiradoras de personagens que batalham pela inclusão. São depoimentos de quem vive diariamente as dificuldades impostas aos cidadãos com algum tipo de limitação física ou intelectual e, a partir da própria experiência, pensa e propõe medidas para sair da invisibilidade e tornar o ambiente social mais acolhedor e propício a todos.

A data — 21 de setembro — foi instituída em 1982, simbolizando o nascimento das reivindicações por cidadania e participação em igualdade de condições. Segundo o subsecretário municipal da Pessoa com Deficiência, Geraldo Nogueira, o dia representa o momento em que pessoas com deficiência passam a incorporar uma luta por maior espaço na sociedade.

— As comemorações têm sido muito emblemáticas, e geralmente é uma época na qual o tema da deficiência está muito presente. Isso é muito importante, porque ainda somos um segmento muito invisível da sociedade. Mas acho que a presença da pessoa com deficiência no meio social tem melhorado — afirma.

Geraldo é um dos personagens que conta aqui sua trajetória de militância, que começou após um acidente que o deixou paraplégico. A designer Fernanda Schacker, que tem síndrome de Down, criou um guia para que diagramadores possam produzir livros acessíveis a pessoas com qualquer tipo de deficiência. E a professora Ana Cristina Hildebrandt, deficiente visual que dá aulas há 25 anos conta como se tornou uma referência para seus alunos.

De acordo com o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 45 milhões de brasileiros têm algum tipo de deficiência. Em 2008, o Brasil ratificou a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU) e o Protocolo Facultativo, documentos que basearam a Lei Brasileira de Inclusão (LBI), em vigor desde janeiro de 2016.

GERALDO NOGUEIRA, SUBCRETÁRIO MUNICIPAL DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA

Há 27 anos me acidentei, sofri uma lesão na coluna e fiquei paraplégico. Comecei minha militância na causa dois anos depois. Dediquei meu conhecimento de Direito a isso e participei da elaboração de diversas leis sobre o tema, auxiliando parlamentares, na maioria das vezes como voluntário. Como ativista, entendi que tinha que trabalhar também para pessoas com outros tipos de deficiência. O Brasil tem uma das legislações mais ricas do mundo na questão de inclusão, mas o país precisa evoluir no conceito de cidadania: a sociedade vira as costas às pessoas com deficiência, que têm que resolver seus problemas sozinhas.

Durante esse período, percebi nitidamente uma mudança grande, mas o preconceito gera na gente uma dor que não dá para explicar. E, na maioria das vezes, não te afronta, é feito de forma velada. Eu vejo a necessidade de usar meu conhecimento para atingir o maior número de pessoas. Agora estou na subsecretaria municipal da Pessoa com Deficiência e, entre outros projetos, esperamos publicar em breve um decreto que facilite a concessão de gratuidade no transporte público para esse grupo. Vejo meu trabalho como uma missão, como se eu tivesse que dar uma resposta positiva à deficiência.

FERNANDA SCHACKER, AUTORA DO 'GUIA DE DIAGRAMAÇÃO PARA UM LIVRO ACESSÍVEL'

Muitos livros ignoram as limitações de pessoas com deficiência. Escrevi um guia para orientar como os designers de editoras podem mudar esta postura. Minha obra tem letras grandes e uma fonte legível, o que ajuda pessoas de baixa visão. Deixei uma margem grande para que pessoas com deficiência física consigam virar a página sem esforço. E não deixei o texto alinhado à direita porque, desta forma, as pessoas com deficiência mental podem se orientar melhor entre uma linha e outra.

O guia foi meu trabalho de conclusão do curso de Design que fiz em uma universidade gaúcha. Foram cinco anos em que, às vezes, convivi com professores desconfiados, que não sabiam como interagir comigo, porque nunca tinham tido um aluno com síndrome de Down. Consegui cumprir uma trajetória difícil: ia sozinha para o curso, que era noturno, e gravava a aula para assisti-la novamente em casa ou fotografava o quadro quando ele era apagado rápido demais. Depois de um ano e meio, eu estava totalmente adaptada. Alguns colegas até pediam meu caderno emprestado para copiar alguma matéria que não haviam entendido.

Quero contribuir para a inclusão das pessoas com deficiência e apresentar meu guia em seminários e feiras. Só falta encontrar uma editora.


ANA CRISTINA HILDEBRANDT, PROFESSORA DO INSTITUTO BENJAMIN CONSTANT PARA ALUNOS CEGOS

Tenho 25 anos de magistério e sempre dei aula para alunos cegos, que leem e escrevem em Braile. Tive baixa visão até os 8 anos e, depois, fiquei cega completamente. É gratificante fazer pelos outros o que já fizeram por mim. A criança cega tem poucas referências de adultos cegos, principalmente na rede municipal, onde estudam com professores e colegas que enxergam. Ali, o professor cego, como eu, além de ensinar matemática, por exemplo, acaba sendo uma referência também. No Benjamin Constant é um pouco diferente porque os alunos estão em turmas em que todos são cegos, em condição de igualdade.

Digo para eles que não precisam ter medo, mostro que eles podem ter uma vida acadêmica, uma profissão, para que eles se coloquem como pessoas autônomas e cidadãos. Mas nem todos os alunos têm a chance de descobrir que a situação deles não é de impossibilidade, mas de dificuldade. E que eles podem aprender de outras formas, com outros sentidos.

Dei aula por dez anos de Braile para professores que vinham ao instituto se qualificar. Foi muito rico conscientizar os colegas, divulgar o sistema Braile e mostrar que os alunos deles têm capacidades maiores do que eles acreditam ter.