O Brasil vive um momento de ruptura histórica que só pode ser comparado a dois períodos da história brasileira que também ofereceram condições de transformação. À década de 1880, momento da chamada ‘abolição’ da escravatura, e aos anos de 1930, quando o país migra de uma fase majoritariamente agrária para um período de industrialização.
 
A avaliação é do economista Marcio Pochmann, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ele participou da plenária ‘Siderlei de Oliveira’ realizada pela Confederação Brasileira Democrática dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação (Contac-CUT) nesta quinta-feira (16) para falar sobre alternativas às mudanças do capitalismo e o avanço do neoliberalismo.
 
O evento ocorre até esta sexta-feira (17) e conta com a participação de entidades sindicais de todo país. Apesar do cenário passível de transformações, o campo progressista, de esquerda, tem feito diagnósticos equivocados e ultrapassados, aponta. Segundo ele, a visão de segmentos como o movimento sindical está velha e viciada em modelos que não existem mais.
 
Com o diagnóstico de que há um impacto externo, cria-se uma ideia de que o Brasil passa por tantas transformações advindas de fora de suas fronteiras que só restaria ao país se acomodar, não restando, assim, alternativas.
 
Essas são narrativas permeadas de equívocos, sustenta Pochmann, ao exemplificar discursos relacionados à revolução tecnológica ou à globalização financeira que apostam na absorção das informações e das ideias e que, de maneira geral, são conduzidas por empresários e capitalistas.
 
“Embora nós tenhamos capacidade de perceber essas mudanças e em geral olhando pelo lado mais negativo, nós não conseguimos ingressar na disputa do sentido da mudança que está em curso no Brasil”, disse.
 
Segundo o economista, a classe dominante ou, como ele chamou, “dos ricos, dos endinheirados”, compreende o que significa períodos de mudança histórica e, por isso, move suas peças.
 
“Se a gente quiser entender o Brasil, porque que nós temos o racismo, uma desigualdade profunda entre o campo e a cidade, por exemplo, precisamos entender o que aconteceu lá naquela mudança da época de 1880, que é um período que reescreve o Brasil, assim como a partir da década de 1930. Ou seja, quero chamar a atenção de que temos em mãos uma oportunidade histórica de reescrever o Brasil assim como nesses outros períodos”, defende.
 
A questão, para Pochmann, é perceber que os privilegiados sabem fazer a leitura das vulnerabilidades a cada tempo histórico, para que não haja avanços à classe trabalhadora ou a determinados segmentos sociais.
 
“Eles oferecem em geral um cenário de pessimismo, um cenário de depressão, em que só se enxergam as coisas mais difíceis porque sabem que o povo entristecido é um povo que não luta, trabalhadores em sindicatos desorganizados, deprimidos, não vão à luta para vencer, mas para sobreviver”, alertou.
 
Transformações permanentes
 
Para o economista, é preciso entender que a sociedade urbana, industrial, de um Brasil dos anos de 1970 ou de 1980 não existe mais.
 
“O ingresso do Brasil na globalização, a permanência das políticas neoliberais, foram desmontando algumas estruturas. Hoje não temos mais uma burguesia industrial. Poderíamos não gostar, mas tínhamos figuras ilustres como personalidades que estavam no âmbito da indústria. Essa burguesia industrial, portanto, tinha uma referência. Hoje o que temos é uma burguesia de comércio, de serviço”, falou.
 
Ao mesmo tempo, Pochmann explica que essa burguesia foi se convertendo. Os donos foram vendendo suas indústrias para o capital estrangeiro, outras fecharam. Mas com o dinheiro ganho com algumas dessas empresas, os antigos donos então se renderam ao rentismo.
 
“Colocaram dinheiro no banco e passaram a viver de juros, defendendo os juros altos. De outro lado, aquela burguesia industrial que conseguiu manter pelo menos o nome da indústria, se converteu em comerciante. Comprando, na verdade, componentes, insumos no exterior para montar e vender no Brasil. E como todo comerciante, em qualquer lugar do mundo, o objetivo é comprar barato e vender caro”, descreve.
 
De acordo com o economista, esse empresário que anteriormente era industrial e passou a ser um comerciante, começa a apoiar qualquer medida que signifique redução de custos.
 
“A mudança da legislação trabalhista, tudo que puder reduzir custo, é excelente para ele. É um amante da alta taxa de juros e câmbio. Quanto mais valorizada a nossa moeda, maior é a facilidade para importar produtos e vender caro no Brasil.”.
 
Apontar para o futuro
 
Frente às transformações da sociedade brasileira, Pochmann aponta para o fato de que o Brasil tem hoje uma nova classe trabalhadora, que majoritariamente é a de serviços. Uma classe que, segundo ele, ao menos antes da pandemia, respondia por uma maioria de ocupados no país.
 
É diante deste cenário que a análise precisa ser feita, defende o professor.
 
“Podemos até ter bons diagnósticos, entender que o atual governo está destruindo o país, que o desemprego aumenta, que há precarização. Nós temos um diagnóstico que, na maior parte das vezes, é até correto sobre a realidade nacional. O problema é que esse diagnóstico não aponta para um futuro”, avalia.
 
“Em geral, a gente diz que ‘a situação está ruim, mas anteriormente era melhor’, que ‘anteriormente havia carteira assinada’, que tinha emprego, ou seja, nós jogamos para o passado e não para o futuro. Esta nos parece uma questão que nos coloca como conservadores, querendo conservar uma realidade que não existe mais”, completa.
 
Visão iluminista
 
Pochmann entende que a questão está em como construir um novo horizonte de expectativas sobre um futuro melhor. Ele compreende que isso implica reconhecer que o país está diante de algo novo sobre o qual ainda se desconhece, de uma nova classe trabalhadora que precisa ser estudada.
 
Critica, assim, a visão de entidades sindicais já há muito tempo no país, exemplificando a partir da pauta da terceirização.
 
“De fato, a terceirização tem características precarizadoras. Ocorre, porém, que essa visão de cima para baixo, essa visão iluminista, da forma como foi feita esta luta, nos fez perder contato justamente com a massa de terceirizados”, observou.
 
Em estudo realizado pelo Dieese, sugeriu Pochmann, havia na década de 1990 aproximadamente 14 milhões de trabalhadores terceirizados nas atividades-meio, tal como era possível naquele período.
 
“Desse total, 80% jamais tinham tido um emprego assalariado com carteira assinada, ou seja, não tinham absolutamente nada antes de ter um emprego com carteira assinada. Portanto, para esses trabalhadores, a terceirização não era precarização, pelo contrário, para eles era uma ascensão, passaram a ter emprego com carteira assinada, com direitos sociais”, acrescentou.
 
Para Pochmann, esses trabalhadores, ao conquistarem algo que antes não tinham, melhor, portanto, diante do argumento das entidades sindicais e de partidos políticos entenderam que essas organizações progressistas ao serem contra a terceirização, eram contra eles.
 
Desafios no presente
 
O economista acredita que o movimento sindical precisa se reinventar. Ele aponta como caminho possível que os sindicatos repensem o cenário atual em que se evidencia uma proliferação de atividades vinculadas às plataformas digitais.
 
“Nosso discurso é crítico: somos contra esse emprego. Mas os trabalhadores nos dizem: se não temos esse emprego, teremos o quê? Eu não estou defendendo a precarização, o rebaixamento. Quero chamar a atenção que esta é a realidade do país. E existe uma incapacidade que as instituições têm hoje de lidar com essas mudanças”, afirma.
 
De acordo com Pochmann, os trabalhadores vão procurar instituições que os representem, que os permitam construir identidade e pertencimento, mas isso se configura atualmente de uma forma diferente dada as mudanças de atuação da classe trabalhadora.
 
Avalia, assim, que parte do lugar que seria do sindicato ou de outras instituições passou a ser ocupado por igrejas, pelo crime organizado ou as milícias - o chamado, segundo ele, novo sistema de jagunço que controla o país.
 
“Enquanto o lema das igrejas é ‘fale que quer, quero escutar’. O nosso lema é ‘silêncio que eu quero falar’. Ou seja, estamos no sentido inverso. Queremos dizer o que tem que ser feito, não temos espaço para ouvir, para identificar a realidade, a situação de cada um”, comenta, ao sugerir que isso seja repensado por entidades e partidos políticos.
 
Para Pochmann, os sindicatos precisam conhecer melhor quem querem representar diante das mudanças no mundo do trabalho, de modo que é preciso, em sua percepção, uma reorganização profunda do modo de fazer a ação política, de fazer a ação sindical.
 
“A classe trabalhadora que nós temos hoje no Brasil está vivendo um momento insurrecional, ela detesta a situação em que estamos vivendo porque é opressiva, porque os salários são baixos. O problema é que nós não alimentamos esta insurreição do ponto de vista individual para se transformar em coletiva. Porque muitas vezes o papel das nossas instituições é resistir às mudanças porque queremos voltar a um passado que não existe mais”, conclui.
 
Fonte: Brasil de Fato
O Brasil vive um momento de ruptura histórica que só pode ser comparado a dois períodos da história brasileira que também ofereceram condições de transformação. À década de 1880, momento da chamada ‘abolição’ da escravatura, e aos anos de 1930, quando o país migra de uma fase majoritariamente agrária para um período de industrialização.
 
A avaliação é do economista Marcio Pochmann, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ele participou da plenária ‘Siderlei de Oliveira’ realizada pela Confederação Brasileira Democrática dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação (Contac-CUT) nesta quinta-feira (16) para falar sobre alternativas às mudanças do capitalismo e o avanço do neoliberalismo.
 
O evento ocorre até esta sexta-feira (17) e conta com a participação de entidades sindicais de todo país. Apesar do cenário passível de transformações, o campo progressista, de esquerda, tem feito diagnósticos equivocados e ultrapassados, aponta. Segundo ele, a visão de segmentos como o movimento sindical está velha e viciada em modelos que não existem mais.
 
Com o diagnóstico de que há um impacto externo, cria-se uma ideia de que o Brasil passa por tantas transformações advindas de fora de suas fronteiras que só restaria ao país se acomodar, não restando, assim, alternativas.
 
Essas são narrativas permeadas de equívocos, sustenta Pochmann, ao exemplificar discursos relacionados à revolução tecnológica ou à globalização financeira que apostam na absorção das informações e das ideias e que, de maneira geral, são conduzidas por empresários e capitalistas.
 
“Embora nós tenhamos capacidade de perceber essas mudanças e em geral olhando pelo lado mais negativo, nós não conseguimos ingressar na disputa do sentido da mudança que está em curso no Brasil”, disse.
 
Segundo o economista, a classe dominante ou, como ele chamou, “dos ricos, dos endinheirados”, compreende o que significa períodos de mudança histórica e, por isso, move suas peças.
 
“Se a gente quiser entender o Brasil, porque que nós temos o racismo, uma desigualdade profunda entre o campo e a cidade, por exemplo, precisamos entender o que aconteceu lá naquela mudança da época de 1880, que é um período que reescreve o Brasil, assim como a partir da década de 1930. Ou seja, quero chamar a atenção de que temos em mãos uma oportunidade histórica de reescrever o Brasil assim como nesses outros períodos”, defende.
 
A questão, para Pochmann, é perceber que os privilegiados sabem fazer a leitura das vulnerabilidades a cada tempo histórico, para que não haja avanços à classe trabalhadora ou a determinados segmentos sociais.
 
“Eles oferecem em geral um cenário de pessimismo, um cenário de depressão, em que só se enxergam as coisas mais difíceis porque sabem que o povo entristecido é um povo que não luta, trabalhadores em sindicatos desorganizados, deprimidos, não vão à luta para vencer, mas para sobreviver”, alertou.
 
Transformações permanentes
 
Para o economista, é preciso entender que a sociedade urbana, industrial, de um Brasil dos anos de 1970 ou de 1980 não existe mais.
 
“O ingresso do Brasil na globalização, a permanência das políticas neoliberais, foram desmontando algumas estruturas. Hoje não temos mais uma burguesia industrial. Poderíamos não gostar, mas tínhamos figuras ilustres como personalidades que estavam no âmbito da indústria. Essa burguesia industrial, portanto, tinha uma referência. Hoje o que temos é uma burguesia de comércio, de serviço”, falou.
 
Ao mesmo tempo, Pochmann explica que essa burguesia foi se convertendo. Os donos foram vendendo suas indústrias para o capital estrangeiro, outras fecharam. Mas com o dinheiro ganho com algumas dessas empresas, os antigos donos então se renderam ao rentismo.
 
“Colocaram dinheiro no banco e passaram a viver de juros, defendendo os juros altos. De outro lado, aquela burguesia industrial que conseguiu manter pelo menos o nome da indústria, se converteu em comerciante. Comprando, na verdade, componentes, insumos no exterior para montar e vender no Brasil. E como todo comerciante, em qualquer lugar do mundo, o objetivo é comprar barato e vender caro”, descreve.
 
De acordo com o economista, esse empresário que anteriormente era industrial e passou a ser um comerciante, começa a apoiar qualquer medida que signifique redução de custos.
 
“A mudança da legislação trabalhista, tudo que puder reduzir custo, é excelente para ele. É um amante da alta taxa de juros e câmbio. Quanto mais valorizada a nossa moeda, maior é a facilidade para importar produtos e vender caro no Brasil.”.
 
Apontar para o futuro
 
Frente às transformações da sociedade brasileira, Pochmann aponta para o fato de que o Brasil tem hoje uma nova classe trabalhadora, que majoritariamente é a de serviços. Uma classe que, segundo ele, ao menos antes da pandemia, respondia por uma maioria de ocupados no país.
 
É diante deste cenário que a análise precisa ser feita, defende o professor.
 
“Podemos até ter bons diagnósticos, entender que o atual governo está destruindo o país, que o desemprego aumenta, que há precarização. Nós temos um diagnóstico que, na maior parte das vezes, é até correto sobre a realidade nacional. O problema é que esse diagnóstico não aponta para um futuro”, avalia.
 
“Em geral, a gente diz que ‘a situação está ruim, mas anteriormente era melhor’, que ‘anteriormente havia carteira assinada’, que tinha emprego, ou seja, nós jogamos para o passado e não para o futuro. Esta nos parece uma questão que nos coloca como conservadores, querendo conservar uma realidade que não existe mais”, completa.
 
Visão iluminista
 
Pochmann entende que a questão está em como construir um novo horizonte de expectativas sobre um futuro melhor. Ele compreende que isso implica reconhecer que o país está diante de algo novo sobre o qual ainda se desconhece, de uma nova classe trabalhadora que precisa ser estudada.
 
Critica, assim, a visão de entidades sindicais já há muito tempo no país, exemplificando a partir da pauta da terceirização.
 
“De fato, a terceirização tem características precarizadoras. Ocorre, porém, que essa visão de cima para baixo, essa visão iluminista, da forma como foi feita esta luta, nos fez perder contato justamente com a massa de terceirizados”, observou.
 
Em estudo realizado pelo Dieese, sugeriu Pochmann, havia na década de 1990 aproximadamente 14 milhões de trabalhadores terceirizados nas atividades-meio, tal como era possível naquele período.
 
“Desse total, 80% jamais tinham tido um emprego assalariado com carteira assinada, ou seja, não tinham absolutamente nada antes de ter um emprego com carteira assinada. Portanto, para esses trabalhadores, a terceirização não era precarização, pelo contrário, para eles era uma ascensão, passaram a ter emprego com carteira assinada, com direitos sociais”, acrescentou.
 
Para Pochmann, esses trabalhadores, ao conquistarem algo que antes não tinham, melhor, portanto, diante do argumento das entidades sindicais e de partidos políticos entenderam que essas organizações progressistas ao serem contra a terceirização, eram contra eles.
 
Desafios no presente
 
O economista acredita que o movimento sindical precisa se reinventar. Ele aponta como caminho possível que os sindicatos repensem o cenário atual em que se evidencia uma proliferação de atividades vinculadas às plataformas digitais.
 
“Nosso discurso é crítico: somos contra esse emprego. Mas os trabalhadores nos dizem: se não temos esse emprego, teremos o quê? Eu não estou defendendo a precarização, o rebaixamento. Quero chamar a atenção que esta é a realidade do país. E existe uma incapacidade que as instituições têm hoje de lidar com essas mudanças”, afirma.
 
De acordo com Pochmann, os trabalhadores vão procurar instituições que os representem, que os permitam construir identidade e pertencimento, mas isso se configura atualmente de uma forma diferente dada as mudanças de atuação da classe trabalhadora.
 
Avalia, assim, que parte do lugar que seria do sindicato ou de outras instituições passou a ser ocupado por igrejas, pelo crime organizado ou as milícias - o chamado, segundo ele, novo sistema de jagunço que controla o país.
 
“Enquanto o lema das igrejas é ‘fale que quer, quero escutar’. O nosso lema é ‘silêncio que eu quero falar’. Ou seja, estamos no sentido inverso. Queremos dizer o que tem que ser feito, não temos espaço para ouvir, para identificar a realidade, a situação de cada um”, comenta, ao sugerir que isso seja repensado por entidades e partidos políticos.
 
Para Pochmann, os sindicatos precisam conhecer melhor quem querem representar diante das mudanças no mundo do trabalho, de modo que é preciso, em sua percepção, uma reorganização profunda do modo de fazer a ação política, de fazer a ação sindical.
 
“A classe trabalhadora que nós temos hoje no Brasil está vivendo um momento insurrecional, ela detesta a situação em que estamos vivendo porque é opressiva, porque os salários são baixos. O problema é que nós não alimentamos esta insurreição do ponto de vista individual para se transformar em coletiva. Porque muitas vezes o papel das nossas instituições é resistir às mudanças porque queremos voltar a um passado que não existe mais”, conclui.
 
Fonte: Brasil de Fato